quinta-feira, 25 de março de 2010

Às vezes.

Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem para dizer, não ter medo de dizer não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem dúvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a fazer.
E mesmo que a voz trema por dentro, há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se oiça o coração bater desordeiramente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido, e esperar, esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade.
Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer: aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um Deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que a vontade de mudar é sempre mais forte, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de a transformar numa recordação ténue e fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e a sua época e que um dia também teve o seu fim.
Às vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito. Somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor.
Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo a baixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda-fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.
Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer.

Margarida Rebelo Pinto 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Estúpido jardim.

Nunca mais voltam as cores quentes. Os vestidos bonitos, os chinelos numa mão, o gelado na outra, a areia sob os pés. Os baloiços, os bancos de jardim... Onde me sentei sozinha, naquele entardecer escuro e molhado, frio, ríspido e sem sentido. Não conseguia sentir mais do que a ganga ensopada com gotas esquecidas pelo vento no banco daquele jardim que de jardim nada tinha, só bancos e erva a tentarem ser bonitos no meio de uma cidade apressada e poluída. Quase preferi correr para a estrada vizinha, fazer parar os carros, perguntar as horas em jeito de cumprimento e tentar depois perceber o porquê de não olharem com olhos de ver para as suas vidas, fazer com que não deixassem que a vida se transformasse num pesadelo verdadeiro. Mas não, fiquei quieta, tremente com aquela temperatura, não com a do ar, mas com a minha, a que tinha ficado abaixo da garganta quando perdi a voz de tanto gritar o que não sentia. Mais uma vez, tinha perdido as estribeiras, o juízo, a racionalidade, a força, a vontade... Mais uma vez, desejei não estar ali, fugi, chorei sem pudor em frente de gente, gente que voltava para casa, gente que comprava pão, gente que passeava o animal. Corri para aquele jardim, no meio de estradas encruzilhadas, que de jardim nada tinha. Só queria lembrar-me do amor que já sentira, daquilo que já fora e que eu (?) tinha transformado em pesadelo. Não conseguia pensar, não conseguia andar em linha recta, as lágrimas turvavam-me a raiva que sentia, senti-me pequena, muito pequena. Mais uma vez, a minha corrida só me levou àquele jardim vazio de primavera, não consegui chegar ao sítio mais perto que estava mesmo ao meu lado, sentado a dois palmos de ar pesado, no meio de uma conversa queixosa que virou gritos e choros impotentes.
Mas naquele momento, no banco ensopado, só conseguia acreditar que aquele dia não era eu, eu não era assim, não era aquele bicho selvagem que não consegue expressar o que sente, que deseja lutar e matar a presa só porque não falam a mesma língua ou estão em pontos diferentes da cadeia. Naquele momento, a vontade de desistir era como quem diz, porque já não havia nada para desistir, já não havia algo por que lutar, não havia o porque gosto de ti. O mundo tornou-se insano, não conseguia discernir o bem do mal, o exagero da realidade, o que dizia sentir do que me corria verdadeiramente no sangue. Mais uma vez, não consegui lidar com as minhas palavras, mal entendidas, e as que ouvia só me faziam rir, de raiva, de incredulidade, de não estou a ouvir isto. Nunca me tinha sentido tão desconectada de alguém. Nunca me tinha sentido tão impotente em relação às palavras.

Quero cores quentes, quero o sol a invadir-me a íris, a cegar-me de vida, de razão. Preciso de algo que naturalmente me aqueça a força de acreditar em mim e nas outras pessoas. Quero voltar a ser ingénua e inocente. Olhar para um jardim que de jardim nada tenha e não sentir memórias a atazanar-me os minutos que podiam ser de contemplação apenas. Tenho saudades de olhar para a beleza  das coisas e não pensar nem ver ninguém. Para além de mim.



VLC plays: Paramore - Ignorance

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Estúpida canção.

A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga, ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura...



Colei a música à minha realidade e apeteceu-me gritar com as paredes, sair a correr para algum sítio em que o meu vício se tornasse menos profuso, como se planta fosse e me tivessem enraivecido de seiva, agora abundante num chão pouco seguro. Medonho, desnivelado, ambíguo. Ir por um caminho que nem eu sei se existe, sem pausas para café, sem protecções laterais, sem semáforos ou rotundas. Só ir, sem nada, sem ninguém a estorvar, sem meter o bedelho nem deixar que narizes se aproximem. Vou porque sim, porque me apetece. Porque ME apetece. Porque agora sinto força e vejo o chão desnivelado, mas não quero saber, porque não vou pelo chão, vou a voar. As asas?!... Não interessam. Se interessassem, não as teria(s) cortado.



VLC plays: Ornatos Violeta - Ouvi dizer

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Procura-se estabilidade.

Hoje o dia reflectiu-nos. Manhã sol, tarde negra. Devia ter-me fiado mais nas previsões do homem da meteorologia, que nos deu sinal logo pela madrugada. O nosso sol é fictício, não esconde calor nem ajuda as plantinhas. É um sol diferente, só brilha quando lhe apetece e na maior parte dos dias consome mais energia do que aquela que oferece. É o típico solitário à noite, sempre à procura da sua lua encantada, que sabe não existir (pelo menos, para ele), mas não desiste. Eu também procurei o teu encanto, que sei que tens, mas também sabia (achava eu) que esse calor não me protegia da porra da insegurança. E se eu te disser que sim? Que protege? O que vai mudar? Estou a despejar perguntas para fora do tornado que me vai na cabeça e, até agora, não consigo perceber o que é que foi real. Não sei se sentimos tudo o que dissemos, mas houve muita coisa que não disse e sinto-o. Talvez não o tenha sabido demonstrar, não com esta vida dupla que tomámos e que nos levou ora ao céu, ora ao subterrâneo. O motivo por que escrevo... nem eu sei. Não sei se pretendo aproveitar apenas o sol que às vezes vem de lá fora ou se quero recuperar a força do nosso. Qualquer percurso é duro. Resta-me descobrir qual deles será pior. 

Não sei o que quero fazer.

O nosso sol é pequenino. Mas é um sol. E quer apagar-se.

(Já se apagou?)
VLC plays: Alicia Keys - Doesn't mean anything

domingo, 17 de janeiro de 2010

Domingo-dolce-fare-quasi-niente.

(Em conversa com a progenitora, acerca de uma colega de trabalho)

- Oh mãe, não lhe vais dizer isso... Ela vai achar que és uma tarada!
- Oh... Ela já acha!
*risota pegada*

Estimo bastante as saídas dela. Maluca.
Ainda há coisas que existem só para nos fazer sorrir para dentro. Mais importante do que rir mesmo, é aquecer o que às vezes está mais frescote. O peito. E coisas como ver o cabelo e o narizinho da minha sobrinha de 32 semanas gestacionais... É o melhor chocolate quente que se pode ter numa noite de Inverno :)

Outra coisa, as imagens do Haiti têm-me feito uma certa confusão... Eu que não sou muito de me chocar. Parece que aquilo está sério.
Achei piada ao donativo da Madonna - 250 mil dólares. Pá, está bem que eles não têm mais ou menos obrigação do que os comuns mortais... Mas... Até o Brad das pitas doou mais! Está a ficar um bocadinho sovina, a rainha da pop.

Parece que tenho mesmo de me aplicar. Eu não queria, mas vai ter de ser. Não sei por quê, mas algo me diz que por este andar... Vou dar consultas no Haiti :) Sem ofensa, piadinha negra. Não fui feita para estudar. Pior, não sei para o que é que fui feita. Nem sei se vou gostar de falar de comida a toda a hora... Anyway, por agora é para o que estou.

Por falar nisso... Vou ali trincar qualquer coisa.


VLC plays: The Script - Fall for Anything

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Eu quero ver esse feeling, turururu.

E no momento seguinte estou a sorrir. E a rir do vento que lá fora chora de raiva por eu lhe ter fechado a janela. E a ouvir música toda yo, rasca rasquinha, e gostar. Pois é, a vida é mesmo assim. Até nos conseguimos surpreender de vez em quando. É esse o gostinho bom dos dias cinzentos, é saber que às vezes até temos compaixão pelo esforço que o S. Pedro faz para tentar, em vão, estragar-nos a vidinha com o agoiro da chuva e do frio. Às vezes, nem a pouca luz que entra pela janela de manhã nos escurece o bom humor. E hoje sabe bem ter (alguma) consciência isso. Que quando nos levantamos é para ver o sol. Mesmo que tenhamos que esperar uns dias por ele. Pelo menos sabemos o que esperar.

Esta música até que... coiso. Ando cá com uns gostinhos... Acordar cedo anda a fazer-me mal. Ou não :)
Da-se, tenho de estudar. E não me apetece muito. Ok, não me apetece, ponto. Se me apetecesse pouco até que nem era mau de todo. Aiiii.

O Cristiano Reinaldo até que... coiso. Não fosse a inteligência estar toda concentrada nos músculos... Coitadinho. Outro é o Filipe ídolo. Eh pá, abrir a boca só para cantar. Coitadinhos.  

Eu quero ver esse feeling, turururu.

 
VLC plays: D'zrt - Feeling (eu avisei...)   


Post Scriptum: Uma coisa que não percebi bem na letra da música foi... Tudo pára quando tu dizes que sim... Não era suposto parar quando a moça dissesse que não?! Não!? Menos? Ok, eu calo-me.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Primeiro (de) Agosto.

Ao longe, o rio. Tremendamente bonito à hora da sesta, fazia jus ao próprio nome, mostrando-se espelho dourado e brilhante aos turistas que deambulavam na orla. Ouviam-se sussuros de leves brisas que pareciam confrontar-se na quase foz do distrito que escolheste para viver. Formigueiros de carros percorriam a ponte de arcos que ajuda a ligar as margens irmãs. Incapazes de reparar na maravilha daquele sítio, pessoas ao volante perdidas em pensamentos quotidianos, fúteis e escusados, com problemas e soluções, felicidade ou angústia. Embraiagem, travão, reduzir, voltar a acelerar. De via para via, parecem discutir com o tempo que o relógio lhes roubou, tal é a convicção em chegar à outra ponta. Parecem acreditar que podem agarrar as horas e levá-las ao ritmo da vida, quando tão bem sabemos, tu e eu, que é o tempo que nos engole e faz aquilo que quer de nós.
A espuma refeita pelo barco a motor quebra aquele ambiente confuso de cidade e concede-me a miragem do paraíso. As ondas perfeitamente dobradas, o sol a cobrir a água e os verdes da costa, o ar inalado com aroma de ti e o teu olhar atento. A beleza daquele sítio pousava em nós e o especial não passava nem pelo esplendor do rio, nem pelas gentes que lhe davam vida, nem pela imensidão de sol que abraçava o lugar. Algures na mistura de vidas e sentimentos, encontrava-se a nossa vida cruzada, o nosso sentimento unido.
O mundo deixou de obedecer às leis de sempre, absolutas, universais, intocáveis, quando os teus lábios desabrocharam nos meus. Agora, a luz parecia irradiada do próprio planeta, as cores e sensações aconteciam para dar brilho ao sol, o centro era ali, Copérnico já era. O rio correu para montante, a bússola apontou para sul, o vento forte e desordenado deu lugar à nossa leve e sintonizada respiração. Desafiámos a gravidade com o peso da nossa paixão, demorámo-nos no ar sem que alguma coisa nos atirasse ao chão, vencemos o tempo que pulsava no teu relógio e a força do íman que, por entre risos, nos quis separar na mesma manhã. De repente, tudo à nossa volta se simplificou na mera paisagem para o rio do norte, a complexidade juntou-se em redor de nós, do nosso doce e suculento beijo, mais profundo do que o mar lá longe, mais real do que a nossa presença, mais quente do que qualquer sol. Ali, descobriste-me a vontade de te ter, procuraste o gosto a saudade que trazia dentro de mim, fundiste o teu sabor no meu, apaixonado e apaixonante, fizeste-me tua, como tanto tinhas pedido. Deste-me a conhecer a dança dos teus dedos com a irreverência dos meus fios de cabelo, quente sensação de ternura e de querer estar. Tiraste-me de um mundo só meu para ser contigo no teu, inquietaste o meu peito com um olhar profundamente inocente, encantador, e no fim, embalaste o meu corpo de menina num abraço forte e seguro com sabor a lar, doce lar. A dúvida passou a certeza, Tu e Eu?, não, isso era antes, agora seríamos um simples Nós.
Deste-me muito mais do que aquela visão de cristal. Foste amável, amante e amor, foste terra e mar, foste caçador selvagem e cavalheiro enamorado. Agora prevaleces como um estigma no meu corpo, profundo e eterno, fascínio dos meus dias isentos de ti.

Escrito em Agosto de 2008

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Let it go.

Bardamerda com isso.

VLC plays: Air Traffic - No more running away

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Vacina.

A insónia não é de tristeza nem de ansiedade. É de raiva. As lágrimas não são de dor nem de alergia. São de raiva. O grito calado na garganta não é por ser noite e ter respeito pelas pessoas normais. É por orgulho. Coisa que nem sei se tenho quando te percebo mais perto e te acho piada. O orgulho que faço por mostrar quando debaixo desta capa nada mais pode ser mostrado. Rir-te-ias se conseguisses perceber o que escondo... que ainda penso em ti, não sei bem de que maneira, mas penso. Não consigo encontrar razões para isso, não me vejo contigo em momento algum e em lugar nenhum. Mas penso. Não que te ame loucamente (ou simplesmente que te ame), longe disso. Acho que preencheste (nem sempre) alguns minutos da minha solidão e isso levou-me para fora de mim (para dentro de ti). Não gosto disto. Gostava de ter paz e permanecer no meu mundo, ver-te só lá longe onde ninguém interessa, olhar-te com indiferença. Gostava de ser tão forte quanto pareço e tão alegre por dentro como sou por fora. Menos pensar, mais agir. Friamente, com desprezo. Uma simpatia disfarçada. O que for. Queria parecer-te bem, sem ressentimentos, sem sentimentos calados. Na verdade, admito, queria que te arrependesses, que te ajoelhasses e beijasses o chão que calco, que percebesses o que toda a gente quis ver (mas que não existia). Mas a tua incoerência já confundiu alguns (muitos) dos meus dias (noites), por isso é bom que não te arrependas... Porque, nesse caso, eu vou arrepender-me de voltar a deixar-me levar pelo frio enganador da noite.
Sinceramente nem sei o que esperava (espero) de ti... Acho que nunca foi muito. Esperei que mudasses. Esperei mudar-te.
Não é sentir falta, é hábito desmedido. Não é desamor. É raiva. E, fosga-se, é do pior.


VLC plays: Gift - 645

domingo, 1 de novembro de 2009

A Casa Quieta.

Novembro

Eu viria talvez povoado

hipotéticos fantasmas quem sabe
uma ou outra vingança por consumar
dias em que desocupado
de grandes traições anseios
uma ou outra desgraça
quando te atravessaste
intransponível
nesse caminho que fazia só fazendo
pouco alerta mudo impávido
quando olhava sem bem olhar
via só o que queria
mesmo no que ver me custava
e foi quando o teu sorriso


Rodrigo Guedes de Carvalho (2005)