segunda-feira, 26 de maio de 2008

Falta o teu calor.

As ruas vestidas de pernas depiladas e ombros descobertos ainda não voltaram. A chuva demora-se em cada nuvem da cidade, pintando os dias de um gris depressivo. Junho já abre o olho e procura os chinelos aos pés da cama. Passou mais um ano e está na hora de voltar. Assim como tu, que aproveitaste o Inverno para voltar para o meu colo. Não trouxeste a chuva que encheu esta estação, mas voltaste a alimentar as borboletas primaveris que atormentam o meu estômago. Não acendeste a minha lareira no tempo natalício, mas conseguiste (re)acender-me a chama que enfrentava um rescaldo pouco promissor. Não te vestiste de Pai Natal nem me encheste a casa de presentes, eu própria te comprei numa galeria qualquer e te enviei para a minha morada.
O meu calor, esse, foste tu que o emanaste ao longo dos meus lençóis, nas noites febris de chuva exaltada. Tive-te a dormir nos meus braços cada noite que passaste longe de mim... E hoje, estás aqui. Numa derrocada de incertezas, deixei que entrasses por mim adentro e inundasses o meu corpo com a tua peçonha, o teu mel que eu tanto procurei e farejei em cada recanto dos meus dias. Quis-te tanto, mais que à própria vida. E agora, depois de cá estares, pergunto-me se algum dia te terei verdadeiramente. Será que sim? Não sei, mas chuva e granizo em fins de Maio também me parecia improvável... até há poucas horas.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Podes dizer o que quiseres.

Os dias deslizam e acompanham esta Primavera ainda incerta. A marca que deixaste na minha pele não escorreu com a chuva miudinha e o cheiro do teu peito ficou guardado no frasquinho da memória. Ter o teu perfume em casa não me é suficiente; quero mais. Como és capaz de dar fome ao meu ser? Eu, que me envenenei de ti? O meu corpo chora-te todas as noites, mas a alma... Essa já secou. Aperto-te com força no pensamento e deixar-te partir não é mais uma possibilidade. Não me interessa por onde andas, nem para onde queres ir. Reconheço no teu olhar um sentimento meio recíproco... Isso chega-me. Tu não o deixas mostrar-se, mas eu sei que existe. É o Amor. É essa forma de amar que preciso de suster na respiração. A própria que treme quando me perguntas se ainda te amo.
Deixa-te de rodeios e vem ser meu.

You can say what you want.

And when I get that feeling
I can no longer slide
I can no longer run
Ah no no
And when I get that feeling
I can no longer hide
For it's no longer fun
Ah no no

Well, you can say what you want
But it won't change my mind
I'll feel the same
About you
And you can tell me your reasons
But it won't change my feelings
I'll feel the same
About you

terça-feira, 8 de abril de 2008

Tempo de Criança.

Lambuzas-me o cabelo com essa doçura de criança pedinchona. O que hei-de fazer contigo? Enches-me a vida com palmo e meio de sorrisos.
Há dias que serias bem capaz de tirar a paciência a um santo, se os houvesse.
Fazes-me cócegas no coração e voltas a pô-lo no lugar. De quando em vez, lá vais tu soltá-lo da corrente e corres, como se quisesses que te seguisse. Uma voz cá dentro pede-te a mão para não te perder de vista; tu sorris e finges enfado. Mas ambos sabemos que tu não vais sem mim. Voltas as vezes que eu precisar. Que tu precisares.
Gosto de pensar que te tornaste meu no dia em que chegaste ao mundo. Não acredito em almas gémeas; isso é para meninos. Amores perfeitos também só existem em jardins, e mesmo esses, têm hífen. Apesar disso, sinto-te parte de mim, o que me leva a sonhar como uma criança. Como a criança que tens na alma, que se ocupa a adivinhar desenhos nas nuvens e a traçar caminhos em terra batida, longe de todos, nas tardes cheias de calor.
Contigo, a vida pinta-se com as cores da caixa de lápis enorme que tanto pedimos à mãe, aos seis anos. Constróis os sentimentos com legos antigos, mas com a duração de uma vida.
Deixo-me levar com as tuas cantorias ao poente e acabamos o dia sentados numa escada qualquer dessa cidade que nos viu crescer, recordando brincadeiras e traquinices dos últimos quatro anos. O tempo voa, não é? O que nos vale é que as crianças não têm de se preocupar com o tempo...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Reflexão, uma ova.

Um dia, houve alguém que me disse que, por vezes, é preciso parar e olhar para a porcaria (ou não) que temos andado a fazer da nossa vida. Os parêntesis são para casos pontuais, porque normalmente a reflexão só vem ter connosco quando já estamos no fundo do poço.
Acho uma certa piada quando leio as Favourite Quote nesses sites que guardam a personalidade de tanta gente por esse mundo fora (a título de exemplo: hi5, fotolog, zorpia...). Principalmente àqueles seres que afirmam ter o seguinte lema de vida: Viver cada dia como se fosse o último.
Ora bem, meus senhores e minhas senhoras, haja alguém que me comprove que neste globo azul, recheado de 6 biliões de, supostamente, sanguessugas de vida, existe uma única pessoa a viver cada dia como se fosse o último. Penso que nem mesmo os cuidados paliativos recebem mentalidades desse género. Ninguém está preparado para receber o amanhã dessa maneira. Por isso é que ele existe, o amanhã. Toda a gente deixa para amanhã o que pode fazer hoje. Não há um só dia que passemos como se o amanhã não existisse. A todo o minuto se fazem mil planos para um dia, uma semana, uma vida.
O que queres ser quando fores grande?
Onde vais passar as férias este ano?
A que horas nos encontramos no Sábado?
Quando pensas casar-te e ter filhos?
Jogaste no Euromilhões?
Parece que dá gozo fazer isto. Dá gozo pensar que se aproveita tudo ao máximo, tipo Carpe Diem. A ironia é bastante evidente, porque pensando bem, não há niguém razoavelmente consciente que acredite nisso. Na verdade, todos acreditam que mais um ou menos um dia é igual... Ainda há tanto tempo, não é? Ainda somos tão novos. Ahhh, mas Carpe Diem, Carpe Diem 4ever. (Not!)
Por vezes, é preciso sentir a vida a passar-nos ao lado para reagir. Nunca vou aproveitar o dia como se fosse o último. Nunca vou conseguir viver os melhores momentos da minha vida em 24 horas. Prefiro pensar que vou ter a sorte de me sentir saudável e conseguir chegar ao amanhã que tenho planeado. Espero que a vida me perdoe a preguiça de adiar aquilo que poderia ter feito hoje. Espero ter mais oportunidades para mostrar aquilo que valho. Espero que este ano, ou melhor, estes 300 e muitos dias, não tenham sido um desperdício de tempo; sei que não. Mas espero conseguir dar-lhes um verdadeiro sentido e ouvir da boca de outras pessoas, mas principalmente de dentro de mim, qualquer coisa como Afinal, valeu a pena a queda.

Afinal, a esperança é mesmo a última a morrer.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

2007 riscado do mapa.

- So you failed. Alright you really failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You failed. You think I care about that? I do understand. You wanna be really great? Then have the courage to fail big and stick around. Make them wonder why you're still smiling.

by Claire Colburn (Kirsten Dunst), Elizabethtown

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Coisas para recordar.

" Tu nunca serás meu... Nem eu, tua. Ainda assim, não consigo evitar apaixonar-me por ti de cada vez que o destino nos junta no mesmo sítio, à mesma hora. Começo a duvidar se é ele ou se sou eu que teimo em querer-te perto de mim, só para não ter que acarretar com os remorsos de não conseguir arrancar-te do peito.
De todas as milhentas vezes que nos separámos, eu enterrei-te no que parecia ser o mais profundo do meu passado, mas de nada tem servido. Consegues sempre vir ao de cima, ou eu própria te vou buscar. O que parece ser uma eternidade sem ti é, na verdade, um arrastar de dias que pesam meia dúzia de gramas quando te tenho comigo.
A minha vida tem-se resumido a uns largos períodos em que evito, com todas as minhas forças, pensar, sequer, que existes... Depois, pelo meio, surgem dias em que me sorris, como se nada se passasse. E, ironicamente, é aqui que vivo a minha (infeliz) felicidade.
Não vale a pena dizer e prometer a mim mesma que desta é que é... Porque não é. Eu sei que vou voltar a cair na tua esparrela e vou continuar a achar que és um pilho da futa. Mas eu nunca serei tua. "


(Às vezes, arrependo-me de te ter dado conversa no Verão dos meus 15 anos. )

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Maracujá.

Pirueta e meia na vida, desde a chegada. A bússola do destino voltou a girar. O Marquês não é o mesmo e o Egas está mais imponente. As escadas do Chico holandês estão mais curtas... ou assim parecem.
Naquela noite, contavam-se os celsius pelos dedos e a Lua, majestosa, jogava às escondidas com as nuvens. Quase conseguiu distinguir naquele olhar uma poeira qualquer, talvez um fumo. Um rescaldo de incêndio ou, somente, uma chama apagada.
O vento soprava rancorosamente, enquanto ela, muda e queda, se regozijava por mais um falhanço. Estava incrivelmente eufórica por dentro. Como era saudável ter um instinto assim! Aquele sexto sentido funcionava sempre. Pelo contrário, a razão e inteligência que lhe eram mais ou menos características costumavam ficar fora desse contexto.
Mas não sentia nenhuma dor na ferida reaberta. Já não sangrava, nem mesmo se lhe aqueciam gotas nos olhos. Naufrágios naquela ilha foram muitos no reportório. Deixava-se levar sempre pela mesma onda de sentimentos, não olhando às tempestades marítimas que ainda aconteciam no seu profundo. Estava habituada ao oceano de maravilhas furtuito. Apesar da noite fria, sorria com doçura. Sabia que era a última vez que estaria por ali com aquela visão do mundo. Sabia que as escadas nunca seriam tão compridas como se mostravam à luz daquele luar envergonhado. Aquele olhar deixaria um rasto no asfalto do seu íntimo, de tão fugaz convivência... Mas plena. O sotaque com sabor a fruta tropical, o macio dos polegares na sua face escarlate, palavras tão ternas como arrogantes e displicentes.
No meio do nada, sentiu-se bem. Não feliz nem descontente, apenas bem. Sempre amou a noite luarenta em Verões com boa companhia. Na verdade, já não era Verão e a companhia não passava de lembrança. Restava o Santos intacto, adormecido e escuro. Janelas corridas de gentes sempre vistas ali no bairro. Alfacinhas de gema, já dizia o outro. E o banco de madeira subitamente sozinho. Amanhã é outro dia.
Fechou a porta atrás de si e lembrou o dia 15 das férias de Verão. Já perdida em pensamentos soltos, percebeu o porquê da sua serenidade. Foi bom.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Merda.

A um passo de dar um rumo à minha vida, as pessoas mais importantes para mim não me apoiam.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Horas Dementes, Amores Impossíveis.

A chama arde, quase confusa com a luz da rua. Lá fora, a Lua mostra-se timidamente às amigas estrelas, rutilando uma pequena fracção da sua luz àquele quarto. Num misto de sombras e temperaturas altas, há quem se espreguice de aborrecimento e desconforto. A brisa nocturna teima em ficar fora dali, mesmo tendo espaço de sobra para entrar. Naquele momento, ver as cortinas bailarem parece dádiva, ainda que tal aconteça numa dança sobejamente calma e discreta. Ouvem-se suspiros perante aquele quadro. Quase que podia imaginar uma rapariga, elegante e atrevida, a seduzir o rapaz mais giro da discoteca, forçando-o a roçar-se nela enquanto a música se espalhava no ar e o espaço se apertava mais e mais. Até que chegaria à típica melodia dos apaixonados e ele se via, subitamente, com vontade de a puxar para si e desfrutar daquele momento; ali, só os dois, como se a pista se tivesse esvaziado em segundos, e sentindo a pele querer saltar para fora das roupas já cheias um do outro. Mas ele abandona-a, repentinamente, sem dizer palavra, sem olhar para trás.
É aqui que, analogamente, naquele quarto, o vento se solta das garras da cortina persistente e invade, finalmente, a cama suada. Ali está ela, indefesa, agarrada a um quase-sono que a permite sonhar acordada nas horas quentes das noites de um Verão que não esquecerá. No meio de tantos pensamentos, tem tempo para humanizar cortinas e ventos, e torná-los tão íntimos como dois amantes que são nada, um sem o outro. Pressente a angústia soltar-se da jaula, querendo apagar a chama que lhe arde no peito, alimentada apenas por esperança e doces frases vindas de outra boca. Tem medo, mas não desiste. Ele que se atreva, pensa. O Tempo que se atreva. O Destino? Esse que se cuide...
E a chama permanece vivaz.